Iraci Cassiano Soares, a primeira prefeita indígena da Paraíba
Eleita em 1992, liderança Potiguara construiu sua trajetória entre a educação, a comunidade e a política, em um contexto de desigualdade e disputa por território que ainda persiste
Por Amanda Stabile
15|04|2026
Alterado em 15|04|2026
No litoral norte da Paraíba, onde o território indígena Potiguara se encontra com o mar, a cidade de Baía da Traição carrega no próprio nome marcas da colonização e da resistência. É ali que começa a história de Iraci Cassiano Soares, mulher indígena que, décadas antes de a presença de mulheres na política ganhar mais visibilidade, atravessou caminhos improváveis até se tornar a primeira prefeita indígena do estado.
A trajetória de Iraci também foi reconstruída a partir do episódio dedicado a ela na série “Nós, prefeitas”, do podcast Conversa de Portão, produzido pelo Nós, mulheres da periferia. Ouça aqui.
Um território marcado por disputa
Território tradicional do povo Potiguara, a região é atravessada por conflitos históricos, marcados pela ocupação colonial, pela expansão de usinas de cana-de-açúcar e pela disputa por terras que, ainda hoje, não foram totalmente regularizadas.
O próprio nome da cidade traduz esse embate. Antes da chegada dos portugueses, a região era conhecida como Acajutibiró, termo de origem tupi que faz referência à abundância de cajus. A denominação “Baía da Traição” surgiu a partir de narrativas coloniais que classificaram como “traição” as reações indígenas à invasão de seus territórios.
Ao longo do tempo, essa versão foi incorporada à história oficial, apagando o sentido original de defesa e resistência. É nesse cenário, onde o passado colonial ainda ecoa no presente, que se inscreve a trajetória de Iraci Cassiano Soares.
Entre a aldeia e a escola
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Nascida em 1943, na aldeia do Forte, Iraci cresceu em um contexto de poucas oportunidades e muitas restrições — especialmente para meninas. O acesso à educação era limitado, e, dentro de casa, o estudo não era visto como prioridade para mulheres.
Ainda assim, ela insistiu. Para conseguir continuar estudando, trabalhou como doméstica sem remuneração em troca de moradia e frequentava a escola à noite, enfrentando longas distâncias e a ausência de infraestrutura básica.
A trajetória de Iraci foi reconstruída pela pedagoga e pesquisadora Márcia Cristiane, autora da tese “Não posso ser professora da aldeia, mas posso ser prefeita da cidade: biografia de Iraci Cassiano Soares”. A pesquisa buscou registrar a memória de uma liderança muitas vezes ausente dos registros oficiais.
Márcia entrevistou Iraci pessoalmente e conta: “Ela foi me contando a trajetória dela para estudar… porque, se já era difícil para uma mulher ter acesso à escolarização, imagina para uma mulher indígena, pobre, que morava na aldeia, a 25 quilômetros da cidade mais próxima. Não tinha estrada, não tinha estrutura: ou ia a cavalo, ou a pé. Ela teve que passar por várias barreiras para conseguir estudar. Ainda assim, se formou no que na época era o ginásio e fez curso técnico em contabilidade”.
Liderança construída no cotidiano
©Arquivo pessoal/Tese de Márcia Cristiane
Antes de entrar para a política, Iraci construiu sua liderança no cotidiano da comunidade. Atuou como “professora leiga” — termo usado, especialmente no passado, para designar pessoas que ensinavam sem formação pedagógica formal, mas que eram responsáveis por alfabetizar crianças em regiões com poucos recursos.
“Na década de 1960, com a substituição do Serviço de Proteção ao Índio pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e as mudanças na Lei de Diretrizes e Bases da Educação — especialmente a partir de 1961 e depois em 1971, que passaram a exigir formação específica para professores —, ela foi impedida de continuar lecionando nas escolas”, explica a pesquisadora.
Depois, tornou-se parteira, auxiliando no nascimento de bebês, e trabalhou como auxiliar de enfermagem em um posto da Funai. Essas experiências fizeram com que seu nome circulasse entre os moradores como alguém capaz de representar os interesses da população local.
Da vereadora a prefeita
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A entrada na política não foi uma decisão individual, mas coletiva. Segundo Márcia, Iraci foi “aclamada pelo povo”, incentivada pela própria comunidade a se candidatar, diante da falta de representantes indígenas nos espaços de poder. Ela começou na política como vereadora e, em 1992, foi eleita prefeita de Baía da Traição, tornando-se a primeira mulher indígena a ocupar esse cargo no estado da Paraíba.
“Eu pontuei como a primeira prefeita da Paraíba porque achei que seria muita ousadia dizer que ela era do Brasil sem ter outros dados. Pela Paraíba, eu consegui consultar a Justiça Eleitoral e verificar essas informações — e, de fato, ela foi a primeira mulher indígena do estado a se tornar prefeita”, conta.
O slogan de sua campanha sintetizava, em uma imagem forte, o conflito vivido no território: “a briga do beiju contra a lagosta”. O beiju, alimento tradicional feito à base de mandioca, representava os modos de vida indígenas. A lagosta, por sua vez, simbolizava interesses econômicos externos, como a pesca empresarial e a exploração do litoral por grandes grupos.
Governar em território de conflito
A disputa não era apenas simbólica: envolvia também conflitos por terra, já que usinas de cana-de-açúcar e outras atividades econômicas avançavam sobre áreas tradicionalmente ocupadas pelos Potiguara.
O mandato, no entanto, revelou as dificuldades de governar a partir desse lugar. Com poucos recursos financeiros e enfrentando disputas políticas intensas, Iraci lidou com limitações estruturais e episódios de violência. Em um dos momentos mais críticos, um assessor foi morto em uma emboscada que, segundo relatos, teria como alvo a própria prefeita.
“Ela disse que passou quatro anos como prefeita, mas não quis mais voltar. Conta que já tinha sido vereadora e que, quando assumiu a prefeitura, confiou em pessoas que, no fim das contas, desviaram recursos — como combustível, por exemplo — e acabou sendo ela quem respondeu por isso. Até pouco tempo atrás, ainda estava pagando essa dívida”, explica Márcia.
“Por causa desse desgaste, ela disse que nunca quis que os filhos entrassem na política. Porque, por mais que quisesse ajudar o povo, enfrentava muita dificuldade: eram poucos recursos, e não dava para fazer muita coisa além de lutar e buscar melhorias”.
O que mudou — e o que ainda falta
Mesmo com as frustrações, a trajetória de Iraci Cassiano Soares deixou um legado. Em um país onde a presença de mulheres indígenas na política institucional ainda é limitada, a eleição de Iraci, nos anos 1990, abriu caminho para que outras pudessem se imaginar nesses espaços.
Décadas depois, os números mostram avanços tímidos. Nas eleições municipais de 2020, por exemplo, apenas dez pessoas indígenas foram eleitas prefeitas no Brasil — e apenas uma era mulher. No legislativo, a presença é maior, mas ainda distante da proporção da população indígena no país.
Para a jornalista e doutora em Ciências Sociais Glória Rabay, o cenário precisa ser entendido a partir das dinâmicas locais da política. Segundo ela, mulheres costumam ter mais chances de se eleger em municípios menores, onde o poder institucional é mais restrito: “o poder municipal é um micropoder, que não dá grandes vantagens”, explica.
Essa lógica ajuda a entender por que tantas pioneiras — como Iraci — emergem em cidades pequenas. Ainda assim, isso não significa que o caminho seja mais fácil. “Estar na política nesses lugares não é exatamente ocupar um espaço de prestígio ou poder”, afirma Glória, destacando que, muitas vezes, essas mulheres entram na política movidas mais pelo compromisso com a comunidade do que por disputas de poder tradicionais.
Ela também aponta que a presença feminina na política brasileira não segue uma linha contínua de crescimento. Houve momentos de avanço e retrocesso. “Nas eleições de 2012, houve uma ascensão muito grande das mulheres na política”, diz, associando esse crescimento à eleição de Dilma Rousseff à presidência.
Mas esse movimento não se manteve. Segundo Glória, após o impeachment de Dilma, houve uma queda significativa na eleição de mulheres em cargos municipais. “Se você olhar as estatísticas, vai ver que isso aconteceu no país inteiro”, afirma, indicando que o avanço da participação feminina ainda é instável e depende diretamente do contexto político nacional.
Já a antropóloga Braulina Baniwa, da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), destaca que a exclusão das mulheres indígenas da política é histórica: “o Estado não queria nos ver aqui”. Para ela, além da desigualdade econômica, há um processo contínuo de invisibilização e racismo que dificulta o acesso a esses espaços.
Ainda assim, a presença dessas mulheres vem transformando o cenário. “As poucas que estão nesses lugares estão ensinando a sociedade a respeitar os povos indígenas”, afirma Braulina, ao defender a necessidade de “aldear a política” — ou seja, construir a política com a participação direta dos povos indígenas.
A história de Iraci Cassiano Soares ajuda a entender esse processo. Não como um ponto fora da curva, mas como parte de uma trajetória coletiva que segue em disputa. Entre avanços e limites, ela mostra que ocupar a política institucional também pode ser uma forma de continuidade da luta indígena — agora dentro das estruturas do Estado.






